Água – Urgente cuidar!

Artigo Opinião Patrícia Malta Dias, Gestora AQUA+

Numa época em que a ocorrência de fenómenos extremos se agudiza a olhos vistos com episódios de tempestades, fogos florestais, secas e cheias cada vez mais frequentes há que tornar as cidades mais resilientes, ou seja, os edifícios melhor preparados face a estes fenómenos, mas como atuar?

Hoje celebramos o Dia Nacional da Água, instituído em 1983 e que coincide com o início do ciclo hidrológico, ou seja, o início da época das chuvas. Aproveitemos este dia nacional para refletirmos sobre a importância da água!

O último relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas[i] (IPCC) divulgado em agosto hasteou a bandeira vermelha à humanidade ao afirmar que o planeta está a aquecer a um nível sem precedentes e mais rapidamente do que se pensava concluindo que, para evitar os piores efeitos das alterações climáticas, o mundo precisa de uma mudança sem “precedente histórico documentado”.

Aproxima-se a realização da 26.ª Conferência das Partes sobre as Alterações Climáticas (COP26) [ii], a cimeira das Nações Unidas sobre o clima, na qual se pretende:

  • Assegurar a neutralidade carbónica até 2050 e manter o objetivo de limitar o aumento de temperatura a 1,5 graus ao alcance;
  • Adaptação para proteger as comunidades e habitats naturais dado que o clima já está a mudar e vai continuar mesmo com a redução de emissões em curso;
  • Mobilizar o financiamento para cumprir os objetivos anteriores;
  • Trabalhar em conjunto para tornar a ambição global em ações acelerando a colaboração entre governos, empresas e sociedade civil para atingir os objetivos mais depressa.

É necessária uma “ação urgente, sem precedentes e coletiva”, como referido por António Guterres.

A transição energética é fundamental para travar as emissões de gases com efeito de estufa, mas deve ser acompanhada pela transição hídrica!

Olhando apenas para o abastecimento de água nas grandes cidades, este representa 6 a 18% da procura energética e 10 % das emissões de CO2[iii].

Por outro lado, 23% da energia que usamos nas nossas casas destina-se a aquecer água[iv].

Será que valorizamos corretamente a água que sai da torneira? Uma água que foi captada, tratada, armazenada e finalmente entregue…

À primeira vista não parece… pois é água potável que descarregamos na sanita!

Todos nós, enquanto consumidores podemos mudar o nosso comportamento, mas tal não é suficiente. Há que alterar a forma como se gere a água do lado do uso, o que passa por proporcionar aos utilizadores soluções que usam menos de metade da água (e energia associada) para os mesmos fins, sem perda de conforto. Podemos escolher torneiras, autoclismos, chuveiros, máquinas de lavar roupa e loiça mais eficientes, mas também aproveitar águas pluviais para rega e lavagem de pavimentos e reutilizar águas cinzentas para os autoclismos. Se tivermos jardim temos de ter atenção ao tipo de plantas e ao sistema de rega. E em coberturas planas podemos ter uma cobertura verde com vantagens claras na climatização do edifício e na retenção de água da chuva.

Este é o desafio: transformar o desafio da escassez de água na oportunidade da duplicação de cada gota, o que é fundamental para o cumprimento das metas ambiciosas a que Portugal se comprometeu em termos de transição energética e que só será possível alcançar com uma aposta clara na transição hídrica.

O potencial de eficiência é muito grande!

Numa estimativa conservadora, se tirarmos partido do potencial de 30% de eficiência hídrica nos edifícios, conseguiremos ajudar as famílias portuguesas a poupar, em poupanças combinadas de água mais energia, cerca de 800 milhões de euros só no setor residencial.

É neste contexto que surge o AQUA+® “Água na medida certa” (www.aquamais.pt), lançado pela ADENE, um sistema simples, ágil e voluntário que classifica o uso eficiente da água nos edifícios, orientando o mercado (da construção e do consumo) para escolhas e soluções mais eficientes.

Além da Classe Hídrica, o AQUA+ fornece informação ao consumidor/promotor imobiliário relativa ao desempenho do imóvel no que respeita às infraestruturas, equipamentos e dispositivos (instalados ou em projeto), nomeadamente: fontes e redes de água, usos exteriores, eficiência dos dispositivos (torneiras, autoclismos e duches), equipamentos de lavagem (máquinas de lavar loiça e roupa) e água quente sanitária. São, ainda, identificadas as medidas de melhoria a implementar para reduzir o consumo de água e o consumo de energia associado, dando indicação do potencial de poupança de água e de água + energia (nexus água-energia).

Saiba mais em www.aquamais.pt






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[i] O Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas foi estabelecido em 1988 pela OMM (Organização Meteorológica Mundial) e pelo PNUA (Programa das Nações Unidas para o Ambiente), com o mandato de avaliar e compilar a informação científica sobre alterações climáticas; avaliar as consequências ambientais e socio-económicas das alterações climáticas; e formular estratégias de resposta realistas. Desde então os relatórios do IPCC continuam a ser umas das referências principais, informando o debate político e as respostas a implementar por todo o Mundo.

[ii] Cimeira das Nações Unidas sobre  o clima, COP26 ou 26.ª Conferência das Partes sobre as Alterações Climáticas.

[iii]Ferrão, Lorena, 2015; Pordata, com base em INE – Contas Nacionais Anuais.

[iv] Plano Nacional Energia e Clima 2030 (PNEC 2030)

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