Quando a energia se move connosco

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No início de 2026, a mobilidade voltou ao centro das preocupações dos portugueses. A escalada dos preços dos combustíveis, com o gasóleo a ultrapassar os 2 €/litro nas últimas semanas, recordou‑nos de forma muito concreta a vulnerabilidade de uma sociedade ainda fortemente dependente dos combustíveis fósseis, num contexto de elevada instabilidade geopolítica internacional. Medidas de resposta imediata são importantes para aliviar famílias e empresas (como as apresentadas no recente Manual de Poupança – Crise Energética, lançado pela ADENE), mas o verdadeiro desafio está no médio e longo prazo: tornar o sistema de mobilidade mais resiliente, previsível e sustentável. E é precisamente aqui que a mobilidade elétrica, o transporte público e a mobilidade leve assumem um papel central. A boa notícia é que a mudança já está em curso.
Nos transportes públicos, os sinais são claros. Nunca houve tantos passageiros como agora, sobretudo nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, onde a procura cresceu de forma muito expressiva. Esta dinâmica traz consigo naturais dores de crescimento — sobrelotação, atrasos, pressão nas horas de ponta — mas também confirma que cada vez mais pessoas estão dispostas a escolher o transporte coletivo como primeira opção. Com investimento, reforço de oferta e melhor articulação entre operadores, estes desafios transformar‑se‑ão numa oportunidade para cidades mais eficientes e com menos automóveis.
De forma quase paradoxal, os edifícios são uma peça-chave desta transição. É neles que residem as condições para garantir confiança na mobilidade elétrica, assegurando infraestrutura de carregamento adequada e previsível. A nova Diretiva Europeia sobre o Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD) responde a este desafio, ao estabelecer rácios claros de infraestruturação nos parques de estacionamento dos edifícios, garantindo que nenhum edifício novo ou profundamente renovado se torna um passivo técnico. A mobilidade leve não é esquecida, com requisitos específicos para estacionamento dedicado em edifícios de serviços.
A transição ganha ainda mais força quando mobilidade elétrica e energia renovável caminham juntas. Com a recente revisão do Regulamento da Mobilidade Elétrica, aprovada no início de 2026, passou a ser possível integrar de forma direta os pontos de carregamento nas Comunidades de Energia Renovável. Na prática, o excedente de produção solar local pode alimentar veículos elétricos de forma simples e eficiente, reduzindo custos e perdas e aproximando produção e consumo de energia.
Também nas empresas a mudança acelera. O setor da logística urbana é um dos exemplos mais claros, com o anúncio já feito, por algumas marcas de referência, da paridade de preço entre viaturas elétricas e diesel em furgões compactos e médios.
Com autonomias até 350 km e cargas úteis elevadas, a eletrificação da última milha deixa definitivamente de ser exceção para se tornar o novo normal. Se a isso juntarmos uma gestão de frota mais eficiente, apoiada por instrumentos como a classificação MOVE+ da ADENE, caminharemos decisivamente para um novo paradigma na mobilidade empresarial.
Em março de 2026, Portugal atingiu um recorde histórico de matrículas de veículos 100% elétricos, acompanhando uma tendência europeia de forte crescimento. A questão que se coloca é simples: estaremos a adaptar os nossos edifícios, cidades e infraestruturas ao mesmo ritmo? A oportunidade é real. Aproveitá‑la depende da nossa capacidade coletiva de planear hoje a mobilidade sustentável de amanhã.
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