MOVE+ da ADENE, aliado da mobilidade eficiente

Artigo de Opinião Hélder Rodrigues, Gestor MOVE+

Com a Semana Europeia da Mobilidade a decorrer e a situação pandémica menos premente, venho falar-vos de achatar outra curva, a do trânsito. O espaço urbano é finito e a competição por ele feroz: queremos jardins, escritórios, casas, fábricas, comércio, serviços, passeios, estradas, entre outros. Um estudo das Nações Unidas indica que cidades desenvolvidas dedicam entre 25 e 35% da sua área a estradas e passeios. Trata-se de uma fatia significativa, pelo que devemos questionar até que ponto é correto dimensionar estradas para a procura que estas têm durante uma pequena parte da manhã e da tarde? Essa foi a lógica predominante nas últimas décadas, que levou à ocupação, com estradas sobredimensionadas, de espaço precioso, num modelo desadequado às nossas necessidades durante a grande maioria do dia.

Por vezes, a comunicação de temas mais técnicos é dificultada pelo jargão utilizado. No entanto, embora pelos piores motivos, o conceito de “achatar a curva” passou a fazer parte do nosso dia-a-dia recente. Essa ideia pode, assim, ser bastante útil para discutir soluções que permitam a otimização da utilização do espaço público bem como evitar as dores de cabeça que muitos sentem no trânsito ou nas emissões que estes engarrafamentos originam. Embora o uso da expressão tenha proliferado apenas durante 2020, este conceito já está connosco há algum tempo. Por exemplo, os comercializadores de energia elétrica, de modo a incentivar as pessoas a deslocar os seus consumos de energia para horas de menos procura, garantem uma tarifa mais apelativa nessas mesmas horas, com tarifas bi ou tri-horárias. Estabelecendo o paralelismo para a mobilidade nas cidades, apesar de ser imperativo existirem ligações rodoviárias capazes de suportar picos de procura, as limitações físicas do espaço urbano obrigam-nos a pensar em soluções que nos permitam “achatar a curva” de procura destas ligações durante as horas de ponta, com as vantagens inerentes de potencial redução de espaço ocupado por essas ligações, redução das horas passadas no trânsito e redução de emissões.

Esta é aliás uma das razões que levam os especialistas do setor a fazerem sempre a ressalva de que a eletrificação das viaturas é um excelente passo para o ambiente, mas que transportes públicos capazes são também chave para as cidades do futuro, que devem servir ainda melhor as pessoas. Os transportes públicos não são apenas meios de deslocação que devem ser acessíveis à maioria dos cidadãos. São também uma ferramenta para tornar o espaço público mais eficiente e reduzir congestionamentos, já que para transportar 50 pessoas num autocarro ocupamos 42 m2, quando em viaturas ligeiras ocupamos cerca de 255 m2 e, já agora, em bicicletas estima-se uma ocupação de 70 m2.

Adicionalmente, é necessário aumentar a escala de práticas que começam agora a chegar às organizações, desde o teletrabalho ou reuniões online, à flexibilização do horário de trabalho ou até aos incentivos à utilização de transportes públicos, como oferta do passe de transportes, reduzindo, assim, o número de deslocações e de deslocações em viaturas próprias. Enquadra-se aqui também o incentivo à utilização de meios de mobilidade leve, desde a criação de espaços nas organizações para guardar as bicicletas, trotinetas ou outros, até à ajuda na aquisição dos mesmos, garantindo uma redução significativa de deslocações nas zonas centrais das cidades.

Mas será que até nas deslocações em contexto profissional que não podem ser evitadas, uma melhor gestão do serviço pode ter impacto nesta curva do tráfego? Existem benefícios para as organizações em planear melhor para minimizar as deslocações nas horas de ponta. Estima-se que por cada 5 minutos parados no trânsito o consumo de combustível aumente 8%, minimizando este desperdício, para além do tempo do colaborador, as poupanças serão significativas e o ambiente e o espaço urbano agradecem.

Os desafios da gestão do espaço urbano e da mobilidade sustentável são complexos, e todas as soluções com impacto apresentam vantagens e desvantagens. Assim, mais do que apontar desde já o caminho, é importante fomentar a discussão, articulando o plano público e o privado, garantindo desde logo uma aceitação alargada de todas as partes interessadas nas ações a implementar, maximizando deste modo o impacto das mesmas. É também este trabalho de proximidade com as organizações, de fomento da discussão sobre soluções de mobilidade, de partilha de boas práticas e de recolha de opinião que fazemos com o MOVE+ “ a mobilidade eficiente” (www.movemais.pt), uma iniciativa da ADENE, onde contamos já com um leque de organizações muito diversificado, quer no seu objetivo quer na sua geografia, esperando garantir desta forma um caminho apoiado e inclusivo para cidades com menos espaço ocupado por estradas e com deslocações mais eficientes e amigas do ambiente. 

O MOVE+ está em operação desde 2020 para viaturas ligeiras, abrangendo mais de 5000 viaturas, 15% das quais híbridas ou totalmente elétricas. Estima-se que com a partilha de boas práticas para frotas similares se consigam reduções do consumo de energia na ordem dos 13% que, para as viaturas já abrangidas, se traduz em 1,3 milhões de litros de diesel poupados ou cerca de 370 voltas à terra. O MOVE+ garante uma abordagem sistemática de avaliação e comparação do desempenho de frotas, constituindo assim uma ferramenta de comunicação do desempenho e de mobilização das partes interessadas para as oportunidades identificadas, quer de transição energética quer de eficiência. Durante o ano de 2021 o MOVE+ vai chegar às viaturas de pesados de mercadorias e em 2022 viaturas pesadas de passageiros, aumentando assim a escala e o impacto da iniciativa.

 

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