Eficiência (energética) no regresso ao novo normal

Artigo de Opinião Paulo Santos, Diretor Sistemas de Gestão e Certificação

 

Com as férias a chegar ao fim e a situação pandémica estabilizada, perspetiva-se o regresso à normalidade (possível), com muitos portugueses a retomar a atividade profissional em regime presencial.

Da mesma forma que nos adaptámos a novas regras, métodos e meios de (tele)trabalho em contexto pandémico, este regresso ao presencial é também uma oportunidade para fazer novas opções e para mudar comportamentos. Se o fizermos em aspetos que influenciam os consumos de energia e outros recursos (como a água) na nossa atividade profissional, então estaremos também a dar um importante contributo para uma sociedade mais sustentável, descarbonizada e em equilíbrio com o ambiente.

Todos – cidadãos, empresas, Estado e demais organizações – temos essa oportunidade. Mas o que podemos fazer? Eis algumas pistas e sugestões.

Comecemos pela forma como nos deslocamos para o trabalho. De acordo com os dados de consumo de combustíveis do Observatório da Energia (www.observatoriodaenergia.pt), o consumo de gasóleo e gasolina diminuiu cerca de 20% de 2019 para 2020. Os consumidores que normalmente usavam o carro para se deslocar e que, no último ano e meio, estiveram em teletrabalho terão certamente sentido um alívio nas despesas mensais. Agora, com o preço dos combustíveis em alta, certamente irão sentir de novo esse peso na carteira, se voltarem à mesma rotina.

Porque não experimentar outras alternativas ao uso da viatura privada? Os transportes públicos têm cada vez melhor oferta e a custos cada vez mais competitivos para um uso regular. Na Grande Lisboa, por exemplo, o passe mensal custa, no máximo, 40€ e, além de ser uma opção (normalmente) mais barata, é bem mais amiga do ambiente: as emissões de CO2 por passageiro num carro são, em média, de 114 g CO2/km.passageiro, ao passo que num comboio, se fica pelos 16 g CO2/km.passageiro.

Mas, sempre que possível, o ideal é mesmo adotar modos suaves de deslocação: de bicicleta, trotinete ou mesmo a pé. A construção de mais e melhores ciclovias, o uso de motorizações elétricas e o aparecimento de bicicletas e trotinetes de uso partilhado tornaram estas soluções cada vez mais fáceis, acessíveis e seguras de usar.

Além disso, há os potenciais benefícios para a saúde que advém do exercício físico associado: 30 minutos de bicicleta podem “queimar” até 300 kcal, entre 10 a 15% das necessidade energéticas diárias médias de um adulto. Então porque não juntar o útil ao agradável e fazer exercício enquanto se desloca de bicicleta para o trabalho? Veja mais sugestões para uma mobilidade mais eficiente no Centro de Informação para a Energia, em https://www.cinergia.pt/pt/energia-em-mobilidade/.   

Também no próprio local de trabalho é possível usar menos energia e água. O teletrabalho tornou (ainda) mais evidente que, para ter um ambiente de trabalho confortável e produtivo, precisamos gastar energia e recursos. Sentimos isso quando estivemos em casa e os números do Observatório da Energia também o demonstram: de 2019 para 2020, o consumo de eletricidade no setor doméstico aumentou 15%, ao mesmo tempo que diminuiu 18% no setor dos serviços.

Esta tomada de consciência deve incentivar-nos a adotar boas práticas de poupança e eficiência também no local de trabalho presencial, da mesma forma que certamente faríamos ou fizemos na nossa própria casa (veja exemplos no portal Poupa Energia (https://poupaenergia.pt/poupar).

As possibilidades são inúmeras e vão desde o uso criterioso da iluminação natural (ligar a iluminação artificial apenas quando necessário), à redução dos consumos de stand-by dos equipamentos elétricos e eletrónicos (desligando-os quando não são usados), passando pelo uso consciente da ventilação natural para climatizar os espaços (em vez do ar condicionado) ou por evitar o desperdício de água (especialmente de água quente).  

Além destas e de outras medidas comportamentais, também se podem explorar melhorias do próprio edifício onde se trabalha ou prestam dos serviços. Alguns exemplos são a substituição de janelas existentes por novas (de classe A ou A+ pelo www.classemais.pt), o reforço do isolamentos de paredes e coberturas, o uso de equipamentos mais eficientes para climatização e para produção de água quentes, a colocação de iluminação eficiente (p.e. lâmpadas LED) ou o uso de torneiras e outros dispositivos mais eficientes no consumo de água (veja exemplos na rede TECH AQUA+ em www.aquamais.pt).

É mesmo possível ir um pouco mais longe, integrando no edifício painéis solares fotovoltaicos (para produção de eletricidade) ou térmicos (para aquecimento de água), que permitam gerar energia para, por exemplo, consumo no próprio edifício. Desta forma, pode ter-se um edifício com necessidades (quase) nulas de energia, o atual padrão para todos os novos edifícios construídos.

Mesmo que a decisão de investir não seja sua, pode sempre identificar oportunidades existentes para melhoria das condições de eficiência e conforto do seu local de trabalho e sugerir aos decisores que invistam em instalações e equipamentos mais eficientes. O potencial disponível é grande: de acordo com os dados da certificação energética de edifícios (www.sce.pt), cerca de 85% dos edifícios existentes em Portugal são classe C ou inferior e podem ser objeto de melhorias, as quais podem gerar poupanças de até 30% em energia e de até 40% em água. Melhora-se o conforto dos ocupantes e a sustentabilidade do próprio negócio, ao mesmo tempo que se protege o ambiente.

Para além dos serviços, também na indústria se pode aprender com a pandemia e, com isso, promover um regresso com mais eficiência. Em muitas empresas, as regras sanitárias obrigaram a repensar e adaptar processos às novas exigências, num verdadeiro estímulo à inovação que mostrou que é possível fazer diferente. Então porque não usar o mesmo engenho para promover a eficiência energética e de uso de recursos, melhorando assim também a sustentabilidade da própria atividade?

As oportunidades para a eficiência nas indústrias são muitas e diversas, dependendo do sector de atividade e dos processos produtivos utilizados. Uma auditoria energética ou ambiental será certamente um bom primeiro passo, mas há oportunidades de melhoria típicas que podem, desde logo, ser equacionadas. Nos cadernos subsetoriais disponíveis no Sistema de Gestão de Consumos Intensivos de Energia (www.sgcie.pt) pode encontrar informação que inspire e motive a uma mudança de rumo para a sustentabilidade.

Regressar não significa voltar para fazer igual. A forma como fomos capazes de nos adaptar tão rapidamente a uma nova realidade trazida pela pandemia mostrou que, quando mobilizados num objetivo e esforço comum, somos capazes de mudar a uma velocidade extraordinária. O perigo das alterações climáticas, diferindo da pandemia apenas no imediatismo, é tão ou mais urgente e carece igualmente da mobilização de todos.

Precisamos, para isso, de ser mais eficientes no uso de recursos, como a energia e a água, e de privilegiar fontes renováveis, que contribuam para a descarbonização da economia. Agora (ainda mais) conscientes da nossa capacidade de mudar e de nos adaptar (e rápido), temos a oportunidade de contribuir para um futuro mais sustentável, num regresso com eficiência (energética e não só).

 

 

 

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