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Literacia energética dos consumidores: poupar energia (poupar dinheiro) e poupar o planeta

Fernanda Santos

Coordenadora do Departamento de Formação e Educação dos Consumidores da DECO

15.03.2023

4

min. de leitura

“A cada ano que passa, a atmosfera fica mais quente e o clima muda um pouco mais.”1

A mitigação e a adaptação às mudanças climáticas são o maior desafio do nosso tempo. Os consumidores têm agora um papel decisivo e com grande responsabilidade, exigindo-se que passemos da consciência à ação climática e que adotemos estilos de vida mais positivos, saudáveis e sustentáveis. 

Uma das áreas onde teremos que acelerar esta mudança é sem dúvida no consumo de energia em que, conjuntamente com a produção e a utilização da energia por todos os setores, na Europa, é responsável pela emissão de 75% dos Gases de Efeito de Estufa (GEE). 

Os consumidores são chamados, com urgência, para concretizar e acelerar a transição ecológica europeia, para fazer escolhas mais informadas no que diz respeito ao seu consumo de energia, optando pelas fontes de energia renováveis e para um uso mais eficiente de energia em casa o que lhe permitirá contribuir para estas metas sem perder o conforto (térmico) nas suas casas. Esta premissa encontra, contudo, algumas barreiras e dificuldades.

Muitas decisões quotidianas dos consumidores implicam o consumo de energia, sem que os mesmos tenham, muitas vezes, essa perceção. Esta omnipresença e, ao mesmo tempo, a invisibilidade da energia, tornam difícil o controle e a tomada de decisões com vista a uma maior eficiência no uso da energia, com a qual os consumidores não desenvolvem qualquer envolvimento emocional, como têm com a água, por exemplo. Ninguém fica indiferente a uma torneira aberta que desperdiça água e, no entanto, facilmente deixamos que uma lâmpada fique acesa, várias horas, sem qualquer utilidade!

O problema é que, a literacia energética dos consumidores (os conhecimentos, comportamentos e atitudes) é baixa, o que explica, em parte, a dificuldade em fazer reduções e poupança e a inércia para mudar e adotar comportamentos mais sustentáveis. Um estudo de literacia dos consumidores de energia realizado pela ERSE (2020), demonstra que os consumidores portugueses têm um índice de literacia energética baixo (42,8 pontos numa escala de 1 a 100). 

Efetivamente, compreender o que é a energia, quais são as suas fontes, como é produzida, as formas de utilização, são essenciais para se adotar decisões informadas sobre a energia. No entanto, o conhecimento e a informação, por si só não determinam um uso eficiente de energia. É necessário que as pessoas sejam capazes de traduzir esse conhecimento em ações concretas e usar esse conhecimento para responder a perguntas e resolver problemas (comportamentos e atitudes). Do ponto de vista da economia comportamental, os consumidores tendem a preferir opções ou alternativas que não lhe exijam uma decisão ativa e cujos resultados ou benefícios sejam imediatos. Assim, acresce também a necessidade de se melhorar a literacia financeira dos consumidores (com índices igualmente baixos) para que possam compreender quanto podem perder ou ganhar financeiramente, fazer os cálculos associados a este consumo, crucial na alteração comportamental e a adoção de hábitos de consumo mais eficientes.

A DECO há muito que reconhece esta necessidade de melhorar as competências de literacia dos consumidores para que estes estejam melhor informados e esclarecidos, tenham maior confiança no mercado, beneficiem plenamente das suas vantagens e adotem as decisões de escolha e de consumo que melhor respondem às suas necessidades e interesses. A área da energia, com um mercado intrínsecamente complexo, também não se constitui como um domínio do conhecimento especialmente acessível, e por isso, a Associação tem-se empenhado com o desenvolvimento de vários projetos e iniciativas com inúmeras ações de informação e formação e workshops de capacitação para os consumidores, famílias e até envolvendo os mais novos (crianças e jovens) em contexto escolar. 

Estas ações são determinantes para se melhorar a literacia energética dos consumidores como ferramenta para reduzir e ter mais eficiência no consumo de energia pelos cidadãos, se queremos alcançar as metas europeias para reduzir em, pelo menos 55%, os GEE até 2030. Estas ações, a educação e a formação dos consumidores são a estratégia que não deve ficar esquecida se queremos, mesmo, uma economia verde a mais sustentável.

 

[1] Pacto Ecológico Europeu, COM (2019)

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Sobre o autor

Licenciada em Sociologia e Mestre em Educação, Coordenadora da área de Formação e Educação do Consumidor da DECO, Responsável pela Gestão de Projetos (informação e formação) na área da Energia e Sustentabilidade;

A ADENE é a agência nacional para a energia, com uma missão centrada nas pessoas e a ambição de reforçar o posicionamento de Portugal na descarbonização, é um parceiro ativo da transição energética, fortalecendo parcerias, dinamizando a política pública e estando mais próximo dos cidadãos. Com toda a energia!

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