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Artigo

eCIRCULAR – mais do que uma escala, um caminho para a competitividade

25 de Setembro de 2026
Patrícia Corigo
Coordenadora de Inovação da Direção de Sustentabilidade e Mobilidade, ADENE

Tempo de leitura

6 minutos
“O eCIRCULAR é uma inovação portuguesa que aplica à circularidade a abordagem já consolidada no domínio da energia: converter desempenho em informação útil à tomada de decisão.”

Desenvolvido pela ADENE, o eCIRCULAR é o sistema nacional que permite avaliar, classificar e melhorar as práticas de gestão em economia circular. Traduz o desempenho numa escala de A+ a F e ajuda empresas e outras entidades a transformar dados dispersos sobre água, energia, materiais e resíduos, em informação útil para a tomada de decisão.

O ponto de partida: o que é a economia circular

Durante décadas, o crescimento empresarial assentou numa lógica linear – extrair, produzir, utilizar, descartar. Hoje, essa lógica é mais vulnerável perante a dependência de matérias-primas críticas, a volatilidade dos mercados energéticos e a escassez hídrica. Manter materiais em uso, valorizar subprodutos e reduzir consumos de água e energia são formas concretas de reduzir custos, riscos de abastecimento e dependências externas.

A economia circular parte da premissa de que os materiais devem permanecer em utilização o maior tempo possível e com o maior valor possível. O interesse para as empresas não se esgota na dimensão ambiental ou macroeconómica. Cada tonelada de matéria-prima, metro cúbico de água, quilowatt-hora e resíduo representam um custo. Num contexto de volatilidade de preços, instabilidade das cadeias de abastecimento, e maior exigência regulatória e dos clientes, a circularidade constitui um fator de competitividade e de resiliência, de gestão e de margem.

A maioria das organizações, porém, desconhece a sua posição de partida: que práticas já existem, onde estão as principais fragilidades e que medidas devem ser priorizadas para melhorar o desempenho circular.

O eCIRCULAR é uma inovação portuguesa que aplica à circularidade a abordagem já consolidada no domínio da energia: converter desempenho em informação útil à tomada de decisão.

A trajetória de uma PME

Para perceber como esta abordagem se traduz na prática, considere-se uma PME do setor metalomecânico, com 40 trabalhadores, na região Centro. O aumento da fatura energética e do preço da matéria-prima penalizava a margem. Em paralelo, os clientes passaram a solicitar informação ambiental e um aviso de financiamento valorizava a adoção de práticas circulares. Apesar da existência de boas práticas pontuais, a direção não dispunha de resposta para a questão essencial: qual o ponto de situação da organização?

Ano 0 — Diagnóstico. Um auditor eCIRCULAR independente avalia 26 questões relativas à gestão da água, da energia e dos materiais, bem como às estratégias e práticas da organização. O resultado traduz-se numa pontuação, numa classe e num documento de suporte: classe C, identificando o nível de desempenho e as oportunidades de melhoria.

Anos 1 e 2 — Implementação. Instalação de contadores parciais, encaminhamento de um subproduto para uma unidade situada a 15 quilómetros, introdução de critérios de circularidade nas compras e formação das equipas. São medidas mensuráveis e com reflexo direto nos custos.

Ano 3 — Renovação. Nova auditoria e nova classe: B. Redução da despesa com matéria-prima e gestão de resíduos, com o correspondente ganho de posição competitiva.

O eCIRCULAR no terreno

Um sistema de classificação só é credível se for suportado por um corpo técnico qualificado. A ADENE assegura a formação e capacitação de profissionais: até setembro de 2026, foram formados 41 gestores e 63 auditores eCIRCULAR, num total de mais de uma centena de técnicos com competências reconhecidas em economia circular.

Trata-se de um contributo para o desenvolvimento das competências verdes do país. Cada auditoria deixa conhecimento na organização: gestores habilitados a acompanhar indicadores, equipas capazes de analisar consumos e resíduos e uma linguagem comum para o diálogo sobre circularidade.

Os resultados acompanham esta evolução: 83 classificações emitidas e 624 medidas de melhoria propostas a organizações que operam em território nacional.

O enquadramento institucional da ADENE

À semelhança de outras agências de energia europeias, a circularidade integra o âmbito de atuação da ADENE. Depois da eficiência energética dos edifícios, da água com o AQUA+ e da mobilidade com o MOVE+, a Agência para a Energia aplica agora ao eCIRCULAR a mesma lógica: tornar mensuráveis, comparáveis e auditáveis as práticas de gestão em economia circular.

O eCIRCULAR não é uma iniciativa isolada. Está inscrito no Plano de Ação para a Economia Circular 2025-2030, é reconhecido no PNEC 2030 e, em 2025, foi distinguido com o 1.º Prémio Nacional dos European Enterprise Promotion Awards, uma iniciativa da Comissão Europeia, na categoria de apoio à transição sustentável.

Da consciência à ação: o próximo passo para as organizações

A circularidade alcança-se com método: medir, classificar, planear, agir e verificar, comunicando de forma credível o progresso junto de clientes, parceiros, financiadores e demais partes interessadas.

O eCIRCULAR disponibiliza às organizações, em particular às PME, um ponto de partida claro, um percurso verificável e uma demonstração credível do progresso alcançado.

Para as organizações, em especial as PME, que pretendam iniciar ou reforçar este percurso, o primeiro passo pode ser conhecer melhor o eCIRCULAR: visitar o site, frequentar a próxima edição do curso “Gestores e Auditores eCIRCULAR – Classificação em Economia Circular”,  a 21 de outubro, ou agendar uma sessão de esclarecimento com a equipa da ADENE para compreender como o sistema se aplica à sua realidade e que oportunidades de melhoria pode ajudar a identificar.

Sobre o autor

Patrícia Corigo é Engenheira do Ambiente e mestre em Engenharia de Sistemas Ambientais pela Universidade Nova de Lisboa. Coordena, desde 2024, a área de Inovação da Direção de Sustentabilidade e Mobilidade da ADENE – Agência para a Energia, designadamente, no âmbito dos sistemas de etiquetagem energética, de classificação de desempenho hídrico e de circularidade e na operacionalização da Rede Espaço Energia. Entre 2022 e 2024, coordenou, na Recuperar Portugal, a Dimensão “Transição Climática” do PRR. Antes, na ADENE, liderou a área de políticas públicas e o Programa de Eficiência Energética na Administração Pública, participou na negociação do Pacote Energia Limpa e na preparação do PNEC 2030. Trabalhou também no setor privado e em gabinetes governamentais de ambiente e energia.

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