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Artigo

O Mercado Voluntário de Carbono como instrumento de mitigação das alterações climáticas

20 de Julho de 2026
Ana Paula Rodrigues
Vice-Presidente do Conselho de Administração, ADENE

Tempo de leitura

7 minutos
“Ao promover novas florestas, a reflorestação ou a gestão florestal sustentável, o MVC está não só a promover o sequestro de carbono. Está também a reforçar a resiliência do território, ao garantir uma floresta mais saudável, e a promover a biodiversidade, através de intervenções em linha com o Plano de Restauro da Natureza”

A Europa vivenciou o mês de junho com as temperaturas mais altas de sempre, tendo sido o segundo mais quente a nível global. As alterações climáticas são cada vez mais percecionadas pelas pessoas e a janela de oportunidade para reduzir os seus efeitos é progressivamente mais estreita.  É por isso urgente acelerar a sua mitigação, reduzindo emissões e reforçando a resiliência do território, da economia e da sociedade, assegurando assim uma melhor adaptação às alterações climáticas.

Portugal, sendo um país reconhecido pela maturidade das suas políticas climáticas e pioneiro na adoção de um objetivo de neutralidade carbónica, instituiu o seu Mercado Voluntário de Carbono (MVC) em 2024, enquanto instrumento para apoiar a sua trajetória de descarbonização e fazendo parte da solução ao fomentar projetos de sequestro e redução de emissões, mobilizando a sociedade e capital para este objetivo, a ação climática.

São múltiplos os coobjetivos ambientais que podem ser acionados por este projeto. Ao promover novas florestas, a reflorestação ou a gestão florestal sustentável, o MVC está não só a promover o sequestro de carbono. Está também a reforçar a resiliência do território, ao garantir uma floresta mais saudável, e a promover a biodiversidade, através de intervenções em linha com o Plano de Restauro da Natureza, agora em discussão pública.

O sistema voluntário de compra e venda de créditos de carbono tornou-se operacional, em outubro de 2025, após concretizadas as ações de base e constituída a Comissão Técnica de Acompanhamento que integra especialistas de reconhecido mérito e independência. Para isso, foi desenvolvida a plataforma de registo dos projetos e dos créditos de carbono, sendo a ADENE a entidade responsável pela sua gestão técnica e operacional.  Esta ferramenta permite agregar os agentes de mercado e assegurar a transparência e a rastreabilidade dos créditos, tendo sido implementado um sistema de qualificação de verificadores do MVC, atualmente com 10 verificadores qualificados através de exame. A formação e capacitação para trabalhar no mercado impactou mais de 260 profissionais, sendo também importante destacar a aprovação da metodologia “Novas Florestações” e outras duas que estão em fase final de aprovação: “Reflorestação” e “Gestão florestal melhorada”.

Mas o corolário do trabalho desenvolvido até à data foi a emissão, no passado mês de junho, dos primeiros 595 créditos associados a um projeto de plantação de pinheiros e carvalhos no Sabugal, que permitirá gerar mais de 2900 créditos de carbono no horizonte de vida de 40 anos, constituindo um exemplo do que pode ser o MVC.

Passada esta fase inicial, importa que o mercado ganhe dimensão. Desde logo, do lado da oferta, é fundamental criar as condições para que os promotores avancem com os seus projetos de mitigação. Com a adição de duas novas metodologias, é alargado o âmbito de intervenção no que respeita aos projetos de sequestro florestal de carbono, devendo continuar-se com as ações que visam capacitar os agentes de mercado para estas duas novas metodologias, quer promotores, quer verificadores. A ADENE, através da sua Academia, tem estado envolvida em ações de formação em diversas geografias no território nacional, em articulação com a Agência para o Clima, atividade que prosseguirá nos próximos meses.

Por outro lado, é fundamental criar mais capacidade crítica no mercado e envolver as entidades que detenham conhecimento científico específico no desenvolvimento de novas metodologias, alargando o espectro de tipologias de projetos abrangidos e enquadrando também projetos de redução de emissões.

É preciso também garantir que o mercado é dinamizado pelo lado da procura e que as organizações, particulares ou coletivas se posicionem e manifestem o seu interesse em adquirir créditos gerados em território nacional. No sentido de aprofundar o conhecimento sobre a procura e apoiar o desenvolvimento orientado do mercado, está em curso um inquérito que visa identificar, de forma estruturada, as necessidades, motivações e critérios de decisão dos agentes interessados, incluindo volumes expectáveis de aquisição, preferências quanto a tipologias de projetos e principais condicionantes à participação no mercado.

Para além do ganho de escala, o MVC deve manter a aposta na credibilidade, fator decisivo para quem participa e é reconhecido no mercado. Neste contexto deve assegurar-se o devido balanço entre a necessidade de garantir as condições de adicionalidade, sem prejudicar a exequibilidade dos projetos, aspeto que tem sido transversal à atuação das entidades envolvidas no desenvolvimento do MVC.

A articulação e a partilha de informação entre os diferentes agentes são também aspetos fundamentais para a dinamização do mercado, assumindo particular importância no momento de criação e início de atividade em que todos estão a aprender. Foram mais de 50 as reuniões com diferentes stakeholders que muito contribuíram para a melhoria continua do trabalho desenvolvido.

A dinamização do MVC tem sido uma atividade em que a ADENE tem estado profundamente empenhada, tendo assegurado uma equipa técnica de suporte dedicada, não só dando resposta às competências que lhe foram atribuídas, mas em apoio e em estreita colaboração com a Agência para o Clima, num exemplo de cooperação institucional que importa destacar.

Sobre o autor

Ana Paula Rodrigues é licenciada em engenharia do ambiente pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (1994), detém uma pós-graduação em Gestão de Sistemas Ambientais pelo ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa (2003) e completou o Programa de Alta Direção de Empresas da AESE Business School (2025). Com mais de 30 anos de experiência nas áreas do ambiente e da ação climática, é desde maio de 2023 Vice-Presidente do Conselho de Administração da ADENE – Agência para a Energia. Integra o Conselho de Administração do Fundo para responder a Perdas e Danos, em representação de Portugal, desde 2024. Entre 2022 e 2023, foi Diretora do Departamento de Alterações Climáticas da Agência Portuguesa do Ambiente, I.P., entre 2017 e 2022 foi assessora do Ministro com a tutela do Ambiente e da Ação Climática para as áreas das políticas de clima e energia, tendo acompanhado também a área comunitária e internacional desse ministério. Integrou o Conselho Consultivo da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos entre 2013 e 2015 e posteriormente, em 2023. Ao longo da sua vida profissional desempenhou diversos cargos de gestão e coordenação de projetos na área do ambiente e da ação climática, tendo sido assessora do Conselho Diretivo da APA, gestora de projeto sénior e coordenadora adjunta no Secretariado Técnico do Comité Executivo da Comissão para as Alterações Climáticas e Fundo Português de Carbono. Foi assessora do Secretário de Estado do Ambiente do XVII Governo Constitucional (2007), Auditora Ambiental Adjunta do Ministério do Equipamento Social, entre 2000 e 2007, e técnica superior na Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva (EDIA, S. A.), entre 1995 e 2000.

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