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Preparado/a para o regresso? Já sabe como vai ser o seu?

Tânia Pereira Dinis

Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta Cognitivo-comportamental

03.09.2021

5

min. de leitura

Em setembro falamos sempre de regresso. Ao trabalho, à escola… e este ano acho que sonhamos todos com o regresso a algum tipo de normalidade.

Todos passamos por desafios: ficar em casa em teletrabalho, em casal, com filhos de todas as idades, com seniores a cargo…  ou ter que trabalhar na rua e em contacto com o público quando o contacto com gente era anunciado como demasiado perigoso.

Nao há saúde mental que aguente.

Como psicoterapeuta nunca tive tantos pedidos de consulta de pessoas com cabeças bem arrumadas e bons recursos para lidar com a vida, mas que com todos estes desafios foram empurradas para lá do seu limite. Todos temos um, não tenhamos ilusões.  Super mulheres e super homens só nos livros aos quadradinhos. Por aqui há gente de carne e osso. Gente valente que teve que aprender a viver com menos rua, menos pessoas, menos variedade e menos atividades, daquelas que ajudam a recuperar e regular o stress e que provavelmente nunca tínhamos realmente percebido a falta que nos faziam.

Sem deslocação do trabalho para casa percebemos que até o tempo no trânsito servia para descomprimir.

Descobrimos o poder dos pequenos rituais como montar e desmontar o computador na mesa da sala, de nos vestirmos a preceito para ir do quarto para a sala festejar aquela data especial, que se pode acampar com os miúdos na sala de estar (pegada de carbono zero, com a tenda transportada em mãos da arrecadação para o espacinho entre o sofá e o aparador, ou até mesmo improvisada com lençóis e almofadas – e o treino de ginástica para caber lá dentro com os miúdos é de borla).

Percebemos que as pessoas nos fazem falta em carne e osso. Que zoom e redes sociais são boas ferramentas, mas fracos substitutos para o toque humano. Descobrimos a falta que faz um abraço.

E descobrimos redes de solidariedade. Passamos a reparar mais nos vizinhos, que agora já sabemos como se chamam, houve quem se organizasse para apoiar os mais velhos e descobrisse novos talentos para entreter os mais novos. Pequenos negócios de proximidade que passaram a entregar em casa, marketing criativo como o exemplo que me contaram há pouco tempo do padeiro que ofereceu pão durante um mês a um novo residente da zona, que depois ficou cliente. Aqui a disponibilidade para correr o risco, de abraçar a incerteza e a generosidade compensaram, como tantas vezes acontece quando nos dispomos a isso.

Tivemos que aprender a gerir riscos com graus de incerteza elevados, a seguir regras cujos impactos nem sempre entendemos totalmente.

Tivemos que aprender a confiar mesmo em dúvida.

Na verdade, “tivemos” não! Esta é uma forma de expressão comum na nossa linguagem que é muitas vezes enganosa, deixando em aberto e no vago os nossos motivos e responsabilidades pessoais.

O “tenho que” é uma das expressões que tantas vezes é preciso desmontar em consulta: como costumo dizer “Para viver temos que comer, beber, dormir e respirar! Tudo o resto são escolhas que fazemos!” Porque preferimos essa opção à alternativa, porque fomos capazes de fazer assim, ou porque não soubemos fazer de outra maneira. Em cada momento escolhemos o melhor que sabemos e podemos.

E exercemos essa escolha cada vez que colocámos uma máscara para sair à rua, cada vez que escolhemos seguir uma regra pouco clara para proteger o funcionamento coletivo, com uma noção de bem comum, cada vez que ajudámos um vizinho que não podia sair de casa, quando escolhemos alguém para fazer parte da nossa rede de contactos reduzida, cada vez que testamos uma solução nova para um problema novo que as restrições nos colocaram, e também cada vez que assumimos correr um risco, cada vez que foi preciso decidir com informação insuficiente, mas foi necessário escolher e agir.

E já agora, faça-me o favor de não se julgar em retrospetiva: “Se eu soubesse o que sei hoje…” se calhar não fazia o mesmo, mas não tem qualquer garantia de que o resultado seria melhor.

E agora que regressamos ao trabalho, ainda em incerteza, vamos precisar de usar todas estas aprendizagens e experiências.

Voltamos ao escritório? A 100%? Alguns dias por semana? Várias empresas estão ainda a decidir o que fazer, portanto imagino que enquanto lê estas linhas talvez ainda não saiba.

Bens e serviços, culturais e outros, estão a funcionar. As escolas estarão abertas e acreditamos que assim se irão manter, o que permitirá uma gestão mais fácil da vida familiar que no ano letivo anterior. Valha-nos isso!

Mesmo assim, uma das baixas deste período foi, para muitas pessoas, a confiança para fazer planos de longo prazo. Muitos de nós passamos a navegar à vista, mas isso não tem que ser um problema.

Aliás, quando em dúvida, já havia quem esperasse habitualmente pelo último momento para pensar e decidir para o poder fazer como o máximo de dados relevantes. E também quem antecipasse mil cenários e reunisse recursos para pelo menos 10 desses.

E na verdade não há uma forma certa ou errada, porque todos somos diferentes. Mas pode ajudar pensar qual a forma que traz menor ansiedade, sem ter custos secundários demasiado altos (exemplo: o tempo e energia gastos em preparação de soluções que nunca chegam a ser usadas vs. o custo de ter que resolver de repente)? E pensar que dependendo da situação pode servir melhor uma ou outra.

Um dos princípios da saúde mental é a flexibilidade: procurar aquilo que resulta melhor em determinado momento, sabendo que pode não ser sempre o mesmo. Que diferentes situações pedem diferentes estratégias.

Outro é a compreensão de que o que nos afeta realmente não é a realidade, mas o que interpretamos dela, o que achamos que devia ser, a forma como a julgamos e nos julgamos a nós e acreditamos estar ou não à altura do que nos acontece. E posso assegurar-vos que não há nenhum crítico mais cruel que aquele que temos dentro da nossa cabeça.

Também não posso controlar eventos externos, se há vírus ou não, se acordei bem-disposta ou não, mas posso controlar a minha reação, posso tomar medidas protetoras (máscara, vacina, etc.) e posso escolher sorrir e dizer bom dia, em vez de começar o dia a despejar no outro a lista das minhas frustrações do momento. Posso escolher aceitar o que não está ao meu alcance mudar naquele momento, com a consciência de que “a única constante da vida é a mudança”[1], pelo que não há nada que eu sinta ou esteja a acontecer neste preciso instante que vá durar para sempre.

Existem as dores muito reais das pancadas da vida, mas depois existe todo um sofrimento auto-infligido daquilo que achamos que devíamos estar a fazer melhor, dos mil cenários do que pode correr mal, mas que na verdade ainda não correu e pode nem vir a correr, da ilusão de que todos estão a resolver muito melhor que nós, quando na verdade estamos igualmente perdidos ou encontrados.

Outro princípio importante é aceitar o paradoxo existencial de que se por um lado cada um vive uma experiência única, mais ninguém está dentro da nossa cabeça a não ser nós, por outro nenhum de nós está verdadeiramente sozinho nas suas dificuldades e angústias. Todos nós passamos por elas de uma forma ou de outra e isso pode ser a nascente de um rio de solidariedade.

É fundamental aceitar dar e pedir ajuda com naturalidade. Entender que é algo que faz parte sermos humanos e não uma evidência de falha ou fragilidade. Algo que varia no tempo: hoje eu recebo e amanhã dou. Às vezes de forma recíproca, como acontece dentro das famílias em que quotidianamente fazemos pequenos gestos uns pelos outros, ou passando adiante, ajudando alguém que precisa, porque alguém algum dia nos ajudou a nós. Desenvolver a nossa consciência desta interdependência que temos uns dos outros que pode tornar qualquer adversidade mais leve.

Olhar com gratidão para os recursos que temos hoje, sem perder o sentido crítico do que precisa de ser melhorado, mas também sem nos perdermos na crítica que arrasa todas as conquistas: a ciência que nos permite combater doenças de forma mais eficaz do que alguma vez foi possível na história, a sociedade suficientemente organizada para apesar de todas as falhas ter conseguido organizar respostas a uma escala sem precedentes, os apoios sociais que mesmo com todas as falhas e limitações permitiu ajudar pessoas que há 50 anos teriam ficado desamparadas. Não precisamos ir mais longe do que as histórias das nossas famílias para saber quão diferentes foram as experiências dos nossos avós perante outros períodos de adversidade.

Olhar com realismo para tudo o que tem sido possível fazer e maravilharmo-nos com o facto de nada disto ser magia. São pessoas que estão a trabalhar, a decidir, a fazer. Com falhas? Certamente! Mas se temos eletricidade em casa, comida nos supermercados, médicos nos hospitais, professores nas escolas, lixo recolhido todos os dias, a internet com que acede a este artigo, tudo isto está a ser possível por ação humana.

E somos capazes de muito disparate? Somos. Há notícias que nos chegam todos os dias que o mostram. Mas também somos capazes de tudo o resto.

Estamos a lidar com uma pandemia, sem esquecer outras preocupações graves como os conflitos que estão em curso, e que estamos perante alterações climáticas que nos afetam a todos, que é um tema que não pode ser adiado!

E onde quero chegar com estas várias linhas é que tudo aquilo por que temos passado recentemente é uma fonte de aprendizagem, à escala individual e familiar, mas também social e global.

Que se há algumas coisas que podem estar para além da nossa capacidade de ação individual, há muito que cada um de nós pode fazer. E a ação de cada um faz parte de uma rede (família) dentro de outra rede (bairro/comunidade/associação), dentro de outra rede (cidade), dentro de outra rede (país) e por aí fora… e um qualquer aparentemente pequeno gesto pode ter um impacto muito maior do que esperávamos.

Por isso deixo-vos com algumas perguntas para ajudar a pensar este regresso:

  • Que hábito da pandemia vou querer manter?
  • O que não pude fazer, e que agora já posso, a que vou dar mais valor no futuro?
  • Quem é ou são as pessoas que redescobri ou que me fizeram mais falta com quem vou querer estar mais vezes?
  • O que aprendi sobre mim? Sobre as minhas forças e dificuldades?
  • Quem ajudei e quem me ajudou?
  • Que estratégias encontrei que me ajudaram neste período?
  • O que é que está na minha mão fazer por mim, pela minha família, pela minha comunidade?

E deixo algumas sugestões que espero sejam inspiradoras e incentivadoras deste espírito de empoderamento perante a adversidade e de esperança na capacidade de aprender e construir para um mundo melhor.

– o livro “O homem em busca de sentido” de Viktor Frankl

– o filme “Favores em cadeia”

– um site e um blog com dicas sobre formas de viver e consumir mais conscientes, com alguns passos ao alcance de todos para proteger o ambiente (para além de vários outros recursos que encontram noutros artigos das newsletters da ADENE ) http://ambientalistaimperfeita.com/

https://anagoslowly.com/blog/

https://www.observatoriodaenergia.pt/

– e o site de uma rede de jovens portugueses verdadeiramente impressionante no seu compromisso ativista e capacidade de organização (desengane-se se pensa que estes são miúdos com vontade de se baldar às aulas) em defesa do planeta e no combate às alterações climáticas https://greveclimaticaestudantil.pt/

Eles acreditam que a sua ação pode fazer a diferença e nós podemos inspirar-nos e acreditar com eles e fazer a nossa parte.

Nos vários âmbitos da nossa vida vale a pena escolher aceitar o que não está ao nosso alcance, agir no que estiver e apoiarmo-nos uns nos outros e uns aos outros para fazer acontecer.

[1] Heráclito de Éfeso – filósofo pré-socrático

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Sobre o autor

Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta cognitivo-comportamental com quase 20 anos de experiência clínica com adultos, casais e famílias, formadora.
Desenvolve diversos projetos que procura que tenham impactos positivos na vida das pessoas, seja no referido trabalho clinico, seja através de projetos como a Arena do Tempo, empresa de criação de cerimónias pessoais que ajudam a organizar simbólica e emocionalmente os momentos mais significativos do ciclo de vida, seja através do ativismo social em projetos de inclusão de crianças e jovens, temas de género e direitos LGBTQI+ e, mais recentemente, na Ecopsi, que reúne profissionais ligados à saúde mental e ciências sociais preocupados com as alterações climáticas e o seu impacto na saúde mental.