Miguel Feliciano Gaspar
Miguel Feliciano Gaspar

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Adaptar a cidade para o novo normal

Miguel Feliciano Gaspar

Vereador da Mobilidade na CML

01.02.2021

6

min. de leitura

A vida nas cidades, como a conhecemos até aqui, mudou. O que nos habituámos a considerar “normal”, dificilmente fará parte do futuro. As alterações climáticas são uma realidade do presente e inclusive estão associadas à criação de condições favoráveis ao aparecimento e desenvolvimento de doenças, que afetam a saúde pública. O acordo de Paris, em 2015, foi um evento singular pelo consenso global que reuniu. Pela primeira vez existiu uma enorme união dos povos em torno de um objetivo: o da sustentabilidade e da descarbonização do planeta. Este compromisso foi acima de tudo abrangente: Países, Cidades, Empresas, todos se uniram em torno deste objetivo comum, e de forma tão firme e resiliente, que mesmo quem disse que saía, teve como reação um grande número de cidades a dizer nós não saímos. O acordo de Paris é um compromisso da nossa geração com as próximas, e por isso não poderá ficar apenas pelas intenções.

Os níveis de poluição, de ruído, de congestionamento que registávamos antes da pandemia, associados em muitas cidades ao transporte rodoviário, fazem parte de um passado ao qual não podemos regressar.

Temos de trabalhar para reduzir a utilização do automóvel dentro das cidades. Em Lisboa, 38% das deslocações com menos de 5km são feitas em automóvel. São cerca de 200 mil viagens por dia que poderiam ser feitas a pé ou bicicleta. Nunca tivemos tantos automóveis per capita e a dependência do automóvel, consequência do desenvolvimento urbanístico e do desinvestimento no transporte público nas últimas décadas, sobrecarregou as cidades, com os efeitos negativos já referidos.

É preciso criar alternativas, mas a visão estratégica para a mobilidade Lisboa MOVE 2030, aprovada em 2020, traça desde já a meta. Até 2030, duas em cada três deslocações devem ser feitas em modos sustentáveis, ou seja, a pé, de bicicleta ou em transporte público, para melhorar a nossa saúde pública e a qualidade de vida.

O transporte público é e será sempre a espinha dorsal da mobilidade e nada o substitui pela sua densidade e capacidade de transporte. A opção pelo transporte público é uma decisão racional não só na perspetiva de transporte, mas muito também de gestão do espaço público, bem demasiado escasso.

No entanto, se o transporte público, tal como o conhecemos, fosse a única resposta, não estávamos há décadas a perder passageiros, tendência invertida apenas recentemente com o reforço do investimento no sector, e que infelizmente a pandemia veio abalar.

O transporte público do futuro tem de ser descomplicado, com tarifas simples e acessíveis, um caminho que se iniciou com os passes Navegante em 2019. Tem de estar plenamente integrado nas novas soluções de catálogos de mobilidade e de navegação, o que implica um grau de abertura ao exterior que o sector ainda não tem, mas que terá a sua oportunidade com a nova empresa de transportes da área metropolitana de Lisboa, a TML, constituída em fevereiro de 2021.

A mobilidade ativa é um complemento essencial do transporte público. Tem um peso cada vez maior na mobilidade das cidades e Lisboa não é exceção. Durante a pandemia, o modo ciclável foi o único que a crescer. Enquanto a utilização de automóvel diminuiu, e o transporte público sofreu uma queda muito acentuada, embora no final do ano já revelasse sinais ligeiros de recuperação, a utilização de bicicleta cresceu 25% em 2020 em Lisboa. Em janeiro de 2021, os dados revelaram o melhor mês desde que há contagens na cidade, com um crescimento de 50% face janeiro de 2020 num ponto fixo de contagem localizado no centro da cidade.

As empresas também começam a equacionar novas formas de trabalho, com o trabalho remoto a ganhar cada vez mais adeptos, não apenas entre empregadores, mas também entre os trabalhadores, que presenciaram, durante estes meses, o potencial incremento de qualidade de vida por não terem de reservar 1 a 2 horas por dia nas suas deslocações. Ultrapassado o desafio do fuso horário, o trabalho remoto permite atrair talento de qualquer parte do mundo, o que pode ser uma vantagem competitiva para as empresas, mas também para as cidades.

 

Vivemos tempos singulares e a mobilidade urbana vive dias de mudança, de transformação. A pandemia COVID-19 acelerou a transição e mostrou-nos que podemos e devemos ter outro estilo de vida, mais saudável e sustentável.

Temos de adaptar as ruas, e acelerar a construção de uma cidade diferente, uma cidade mais sustentável e com melhor qualidade de vida, com mais e melhor espaço público e espaços verdes, com mais e melhores condições para andar a pé e de bicicleta. Esta adaptação terá de ser imediata, transformando as cidades em locais mais aprazíveis, capazes de funcionar num ciclo mais curto, onde cada um de nós adaptará os seus hábitos de mobilidade, mais centrados no bairro e onde haverá menor necessidade de deslocações em automóvel para satisfazer as necessidades no dia-a-dia.

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Sobre o autor

Miguel Feliciano Gaspar

Miguel Feliciano Gaspar foi consultor em transportes entre 2003 e 2015, com experiência na área do planeamento e de engenharia de transportes. Na mobilidade urbana, colaborou em diferentes projetos com destaque para a regulação do estacionamento e logística urbana. Ao nível dos transportes públicos, colaborou em assuntos de regulação, contratualização e procura, incluindo no desenvolvimento de iniciativas inovadoras de transporte a pedido. Dedicou-se ainda a projetos na área do desenvolvimento de Sistemas Inteligentes de Transportes.

Foi adjunto do Secretário de Estado Adjunto e do Ambiente do XXI governo constitucional até ser eleito para vereador da Câmara Municipal de Lisboa, onde participou ativamente no desenvolvimento de legislação de regulação sectorial, incluindo soluções inovadoras de transporte e onde prestou apoio técnico no exercício da função de autoridade de transportes por parte do Ministério do Ambiente. Participou ainda ativamente nos processos de municipalização da Carris e da gestão da STCP, bem como no desenho de instrumentos de financiamento público do sistema de transportes.

Foi eleito vereador na Câmara Municipal de Lisboa em 2017, onde é atualmente responsável pelos pelouros da Segurança, Mobilidade, Economia e Inovação.