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3 Perguntas a...

Manuel Grave

Agrónomo

14.04.2022

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min. de leitura

1 – Quais as preocupações ambientais e de gestão dos recursos hídricos que previu no seu projeto do amendoal?

Aquando do planeamento de projectos agrícolas deste género (plantação de amendoal), as questões de cariz ambiental e de gestão de recursos hídricos fazem sempre parte das preocupações principais da operação. No nosso caso concreto, arrendámos para o projecto uma propriedade com disponibilidade de água do perímetro de rega da barragem do Alqueva. Apesar de haver uma boa garantia de água, o sistema de rega instalado foi dotado da mais alta tecnologia existente, com gotejadores que compensam alterações de pressão com vista a aplicarem sempre o caudal adequado e um quadro de controlo acionado remotamente, que controla todos os aspetos das regas que queremos aplicar, garantindo assim que o desperdício de água seja praticamente inexistente. Na parte ambiental, acreditamos que a plantação em nada prejudica o ecossistema em que se insere, e a aplicação de produtos químicos é aplicada apenas na medida do essencial, para que não haja contaminação do local e também porque são extremamente dispendiosos, o que leva a que sejam usados apenas quando estritamente necessário.

 

2 – De que forma as alterações climáticas ou a seca, em particular, tiveram impacto na sua produção e possíveis adaptações a serem feitas?

Não vemos a questão do prisma das alterações climáticas, mas sim de que temos uma fábrica a céu aberto e que os anos são todos diferentes, pelo que temos que ter o máximo de ferramentas e planos para poder minimizar eventuais situações climatéricas adversas. Os últimos anos foram tendo várias diferenças entre si, mas nada que não tivesse já acontecido no passado mais distante. Já tivemos secas no passado, tê-las-emos no futuro infelizmente, e por isso decidimos que associar a nossa plantação a um perímetro de rega forte como é o do Alqueva seria a opção mais segura.
As adaptações que podem ser feitas, na minha opinião, têm que ver com o melhoramento de plantas, como por exemplo variedades mais resistentes à falta de água; à adaptação dos sistemas de plantação consoante a zona em que se inserem por forma a não sofrerem muito no caso de excesso ou falta de água; e com o desenvolvimento das ferramentas tecnológicas de apoio aos agricultores, que a cada dia que passa são mais eficientes na mitigação do desperdício de recursos.

 

3 – Que desafios e oportunidades para o sector nos próximos tempos?

Nos próximos tempos, o sector da amêndoa e a agricultura em geral enfrentam alguns desafios, na medida em que a maioria da opinião pública e por sua vez decisores políticos condenam e acusam a agricultura muitas vezes sem fundamento. Esse menosprezo injustificado levará a que cada vez tenhamos menos ferramentas para atuar e realizar o nosso trabalho. Temos também a conjuntura mundial em que nos encontramos, que torna bastante difícil prever como será a evolução dos preços de venda dos nossos produtos, como do preço dos factores de produção que necessitamos (adubos, produtos, rações, etc).
Relativamente a oportunidades, o sector continua saudável e a funcionar bem, temos esperança que os preços aos produtores venham a estabilizar em valores mais justos para os produtores, e assim tornar a cultura da amêndoa num investimento sólido e com boas perspetivas de futuro.

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Sobre o entrevistado

Natural de Évora, com 32 anos, tem um mestrado em Engenharia agronómica e uma paixão por agricultura desde jovem. Neste momento trabalha num projecto de amendoal executado há 5 anos e que lhe conferiu o título do prémio “Melhor Jovem Agricultor Europeu 2018”. Também desenvolve atividade em explorações agrícolas de produção de bovinos para carne, culturas anuais e vinha.