Já viste a energia hoje?

Tempo de leitura
A energia deixou de ser um serviço invisível do nosso quotidiano. A vulnerabilidade dos sistemas energéticos altamente complexos que garantem que a luz se liga quando carregamos no interruptor, que o carro anda quando pressionamos o pedal e que a água corre quando abrimos a torneira, tornou-se mais evidente.
Os acontecimentos recentes têm sido alertas sucessivos: a invasão da Ucrânia, que fez disparar os preços em 2022; o apagão em abril do ano passado; as tensões mundiais crescentes e a utilização dos recursos energéticos como arma geopolítica; e as tempestades das últimas semanas que fustigaram o país e deixaram milhares de famílias sem eletricidade.
Estamos hoje mais conscientes da importância da energia nas nossas vidas e a palavra de ordem tem sido “resiliência”, significando sistemas mais robustos, capazes de resistir a intempéries, de diminuir a dependência do exterior e de reforçar a capacidade de resposta a choques externos, como flutuações de preços.
O reforço das redes elétricas, a aposta nas energias renováveis endógenas e na eficiência energética são cruciais, mas não podemos esquecer as populações. Porque sistemas resilientes exigem sociedades esclarecidas, sendo fundamental aumentar o conhecimento, a consciência e a capacidade de ação da população.
A pergunta “já viste a energia hoje?”, que dá título a este texto, é um convite à atenção e à reflexão. Está na hora de a literacia energética deixar de estar confinada a relatórios e estratégias e ganhar expressão concreta no terreno. Tem de chegar às escolas, às empresas e às casas das pessoas, com especial atenção aos grupos mais vulneráveis, que são também os mais expostos à pobreza energética e à volatilidade dos preços.
As pessoas têm de ser capazes de perceber se estão a pagar demasiado na fatura de energia no final do mês, saber como mudar de comercializador, escolher os equipamentos mais eficientes e tirar partido das vantagens do autoconsumo (individual ou coletivo). Mais do que isso, devem saber como melhorar o conforto térmico e a eficiência energética das suas habitações e conhecer os apoios existentes para esse efeito.
Os acontecimentos recentes demonstraram que a literacia energética é também uma questão de segurança. Compreender, ainda que de forma básica, como funciona a rede elétrica, distinguindo transporte, distribuição e comercialização, ajuda a interpretar o que acontece em caso de falha e a reagir com maior serenidade e preparação perante um corte de energia.
Assim, torna-se essencial levar a literacia energética aos diferentes públicos, compreender as motivações e limitações das pessoas e adaptar as ações de informação e capacitação às realidades concretas de cada contexto.
A ADENE tem desenvolvido muito trabalho nesse sentido nos últimos anos e está empenhada em reforçá-lo, em colaboração com outros agentes do setor energético — governo, empresas, municípios e organizações da sociedade civil. Porque este deve ser um esforço coletivo. E porque a literacia energética não se impõe, constrói-se com proximidade, clareza e relevância prática.
Sobre o autor
Partilhar: