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Ensaio sobre a Torneira

Filipa Newton

Coordenadora de Novos Sistemas, ADENE – Agência para a Energia

01.06.2021

5

min. de leitura

Cegos que vendo, não veem (José Saramago)

Batem leve, levemente, como quem chama por mim.” Como na balada, não é chuva, nem é gente. É água a pingar até alguém reparar. Este fenómeno, frequente, não é cegueira de gente. É a normalidade de quem não sente. Porque a água vê-se, quer-se, mas não se anseia, porque está sempre presente.

Mas … será que está? 2005, 2017, 2019, 2020, 2021 e outros tantos antes destes: anos com seca e/ou escassez em regiões de Portugal, sem água para todos os usos.

A mesma situação vive-se em várias partes do mundo, incluindo na Europa, em países onde a prévia abundância não incentivou uma utilização eficiente. Não sendo uma epidemia de cegueira, como no Ensaio sobre ela, a sua falta é, em muitos locais do mundo, responsável por outro tipo de “epidemias”. De saúde, nos países em desenvolvimento; de guerra, no médio oriente; de competição por usos, na Europa, entre outros.

A escassez de água é um problema real em muitas regiões, sendo expectável que venha a afetar 45% do território Europeu em 2030.

Não é de agora a escassez sentida ou o uso excessivo. Na Roma Antiga, a água captada do rio e nascentes locais e de poços superficiais era, em várias situações, usada em modo corrente. Quando faltou, em quantidade para fazer face aos volumes excessivos, e em qualidade devido à poluição, foi necessário captá-la mais longe e assegurar a sua distribuição, o que motivou os famosos aquedutos e complexas infraestruturas de distribuição de água.

Hoje, muitos séculos depois, numa altura de crescente busca pela sustentabilidade, continuamos a captar água muitas vezes longe do local de utilização e, apesar da capitação (ie, consumo de água por habitante e por dia) ser muito inferior à da Roma Antiga, continuamos a ter desperdícios de água nos edifícios estimados em 30 a 50% da água consumida. Como?

Quem não poupa água e lenha, não poupa nada que tenha

30 a 50% é o desperdício, ou de forma positiva, o potencial de eficiência hídrica nos edifícios, identificado em estudos e instrumentos nacionais e europeus.

Trata-se do que podemos reduzir já hoje, com a tecnologia disponível, não apenas através de comportamentos, mas, essencialmente, através do uso de equipamentos mais eficientes e da reutilização. Um chuveiro ou uma torneira com as funcionalidades certas e caudal adequado pode consumir menos 60% de água para a mesma finalidade, tempo de uso e conforto.

Tal como na energia, se agirmos nessa dimensão infraestrutural, mais rápida de mudar do que os comportamentos e dependente de menos interlocutores, podemos gerar uma poupança estimada em 800 milhões de euros por ano para as famílias portuguesas (na redução da fatura da água e da energia associada ao aquecimento da água), só no setor doméstico.

Um exemplo para uma família média de 4 pessoas, com uma tarifa média de água em Portugal.

A substituição de dispositivos convencionais de utilização de água (autoclismos, chuveiros, torneiras) por dispositivos com funcionalidades e consumos eficientes, pode resultar em poupanças entre 100 e 200 mil litros de água por ano (sim, 100 a 200 mil garrafas de litro) e de até 230 € na fatura da água anual (além de poupança na fatura de energia usada para aquecer a água), com períodos de retorno do investimento reduzidos, entre 2 a 4 anos.

Porquê?

Quem não sabe é como quem não vê

Portugal tem história, tradição e reconhecimento internacional na sua engenharia. Mas, como é frequente ouvir, não precisamos só de engenheiros e doutores.

Para cada projeto de engenharia, precisamos de bons técnicos, capacitados para a correta implementação, instalação e manutenção contínua. Mesmo na prática da engenharia existe potencial de melhoria e inovação contínuas, principalmente quando se trata da necessidade de tornar os edifícios e infraestruturas mais sustentáveis e eficientes na gestão de recursos, onde se inclui a eficiência do uso da água, desde o desenho de redes prediais, à seleção de dispositivos e equipamentos, da otimização do nexus água-energia, ao aproveitamento de águas pluviais e à reutilização de águas cinzentas tratadas. Temas ainda pouco abordados no universo de especialistas e técnicos do setor dos edifícios, que requerem conhecimentos e cuidados específicos, para assegurar a correta identificação, eficácia e segurança das soluções adotadas.

Esta é a motivação para a criação de novos WATTer Skills – competências para a eficiência hídrica nos edifícios – em Portugal e na Europa, na sequência de uma parceria estratégica que juntou agências de energia e entidades de formação em Portugal, Espanha, Grécia e Itália[1].

O objetivo será formar, capacitar e qualificar os profissionais da construção – Especialistas e Técnicos – para a eficiência hídrica, através de parcerias de formação multi-entidade, assentes em quadros de qualificação e acreditação comuns a nível europeu, que assegurem e certifiquem o conhecimento técnico, a capacidade e a mobilidade desses profissionais no mercado europeu, numa lógica de reconhecimento e de promoção de confiança junto do mercado.

Empregos verdes: meter água (no bom sentido!) nas profissões do futuro

Em julho de 2020, a Comissão Europeia lançou a nova Agenda Europeia de Competências (AEC) com o objetivo de ajudar os cidadãos e as empresas a desenvolverem mais e melhores competências, reforçando e aumentando a competitividade sustentável, a justiça social e a resiliência perante crises.

Esta agenda dá um destaque particular ao reforço de competências associadas às «tecnologias verdes», prevendo o apoio ao desenvolvimento de um conjunto de competências verdes essenciais para o mercado de trabalho e à integração dos aspetos ambientais e climáticos nos diferentes níveis de ensino e formação profissional. Os investimentos em competências profissionais previstos na AEC serão apoiados através do orçamento Europeu de longo prazo reforçado com o Next Generation EU.

Este é o momento para introduzir novos WATTer Skills no nosso país e na Europa, para levar a eficiência mais longe, tirando partido do forte potencial de eficiência hídrica e poupanças combinadas de água e energia no setor urbano, geradores de maior sustentabilidade, mas também de novas oportunidades, serviços de valor acrescentado, empresas, empregos e profissionais qualificados.

[1] WATTer Skills Strategic Partnership, co-financiado pelo Programa Europeu ERASMUS+

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Sobre o autor

Licenciada em Engenharia do Ambiente, ramo de Ambiente, pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.

É atualmente Coordenadora de Novos Sistemas na ADENE – Agência para a Energia, unidade responsável pela operacionalização de sistemas e instrumentos voluntários nas áreas da mobilidade eficiente, eficiência hídrica de edifícios, eficiência energética de produtos e one-stop-shop para a eficiência de imóveis.

Anteriormente foi coordenadora da Unidade Hídrica da ADENE – Agência para a Energia, unidade responsável pela definição e coordenação estratégica de ações na área da eficiência hídrica e nexus Água-Energia na ADENE.

Antes de integrar a ADENE em 2016, desenvolveu atividades de consultoria, gestão e investigação no âmbito da conceção e execução de políticas públicas, processo legislativo, estudos, planos e projetos nas áreas do ambiente, água, energia, resíduos e uso eficiente de recursos.