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Seca, eficiência e a 3.ª Lei de Newton

Filipa Newton

Coordenadora de Novos Sistemas, ADENE

11.04.2022

4

min. de leitura

As pessoas são feitas de água e a história da água é feita por pessoas. Uma história de adaptação, num ciclo contínuo de ação-reação[1]. A 3.ª Lei de Newton encontra na água um exemplo paradigmático de aplicação.

Filipa Newton, Coordenadora de Novos Sistemas, ADENE – Agência para a Energia

Estamos a viver um período de seca extrema em Portugal. Esta frase podia ter sido escrita em várias datas nos últimos anos. A convivência com períodos de seca não é a exceção, começa a ser a constante. Com tendência para agravamento. Portugal perdeu 20% da água disponível desde meados do século XX[2] e os cenários de mudança climática antecipam um agravamento desta realidade.

O contributo do Grupo de Trabalho II para o Sexto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC)[3], publicado em fevereiro, tem sido menos falado em Portugal (em comparação com o do Grupo de Trabalho III), mas revela informação importante para o nosso país. Segundo este relatório, sobre “Mudança Climática 2022: Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade”, no sul da Europa mais de um terço da população estará exposta a escassez de água se o aquecimento global exceder os 2°C; no cenário de aumento de 3°C, estima-se, com confiança média, que esse risco duplique, com importantes perdas económicas nos setores dependentes de água e energia, porque a energia também depende da água.

Apesar de adiantar opções de adaptação para reduzir a intensidade dos riscos, o relatório alerta que em muitas partes da Europa as medidas de adaptação existentes e planeadas não serão suficientes para evitar riscos permanentes, especialmente num cenário de aquecimento acima dos 1,5°C. Estes riscos podem traduzir-se em perdas de habitats e serviços dos ecossistemas, falhas na produção agrícola e alimentar, e limitações ao uso da água durante períodos de seca no sul da Europa.

Estas limitações são já conhecidas do nosso país. Em 2017, a escassez de água afetou o abastecimento a populações (feito com recurso a camiões-cisterna) e a produção de energia renovável, que foi 30% inferior ao ano anterior devido à redução da energia hídrica. Em 2022, a seca está já a afetar também a produção de energia, limitada em muitas barragens desde o início do ano para que não falte água para abastecimento. No final de fevereiro, quando 70% de Portugal continental estava em seca extrema, a produção de energia hídrica desceu 40% face ao mesmo período de 2021[4]. E, no entanto, precisamos que essa produção não diminua, para não prejudicar o nosso contributo para a mitigação das alterações climáticas.

Entre as opções de adaptação indicadas pelo relatório para o risco de escassez de água (um dos quatro riscos chave identificados pelo IPCC), estão a melhoria da eficiência no uso, o armazenamento e a reutilização de água. Opções conhecidas, mas que demoram a assumir um papel central, necessário para aumentar a resiliência do nosso país à seca. No entanto, outras medidas, como o aumento de captações, construção de novas barragens e até dessalinização, avançam rapidamente.

 

O livro “Água: uma biografia”1 de Giulio Boccaletti[5], dá-nos algumas pistas para este fenómeno, ajudando-nos a entender a relação da humanidade com a água. Uma relação que segue um ciclo contínuo de adaptação, num processo de ação-reação: de momentos de riscos associados à água (como falta de água, cheias) que levam as comunidades a reagir desenvolvendo estruturas de mitigação (barragens, diques, etc.); a momentos de segurança onde a ilusão de estabilidade leva ao esquecimento da origem dessas estruturas e a novos hábitos (desperdícios, expansão de comunidades em zonas de risco); até ao momento em que essas estruturas são insuficientes ou falham, repetindo-se o ciclo de reação e nova segurança aparente.

Por isso, a resiliência de longo prazo perante a seca não pode ficar apenas dependente da mudança de comportamentos ou de infraestruturas de aumento da oferta de água. Porque, como a biografia da água nos ajuda a compreender, os comportamentos só mudam e as novas infraestruturas só são suficientes enquanto a memória está viva. E a memória, todos sabemos, é curta.

Um exemplo no nosso país, que ilustra este ciclo de ação-reação e a falta de memória na gestão da água, é o do abastecimento de água às populações. No início da década de 90 do séc. XX, a população não era ainda toda abastecida por água canalizada. Da água abastecida, apenas 50% era considerada segura para beber[6]. No entanto, hoje, com praticamente toda a população abastecida com água segura, nos edifícios desperdiça-se entre 30 e 50% devido a projetos e equipamentos ineficientes, com pouca memória de um país onde a água a eles não chegava. Adicionalmente, 100% da água que lhes chega tem qualidade para beber, apesar de apenas 10% dos usos requerem essa qualidade.

Com a seca atual, crescem as verbas alocadas a medidas de contingência, com investimentos em mais origens de água, em novas infraestruturas. Medidas importantes, mas não suficientes. Porque esta oferta adicional de água potável vai continuar a alimentar 30 a 50% de desperdício nos edifícios e 90% de usos não potáveis, além das perdas de 24%6 nos sistemas de abastecimento.

Então, por que motivo a eficiência hídrica continua a não ser prioritária? A eficiência hídrica implica trabalhar em antecipação, implementar agora para sentir os efeitos no futuro. Numa sociedade reativa na gestão da água, medidas assentes na antecipação demoram mais em vingar.

Como contrariar então este ciclo de ação-reação, como travar a 3.ª Lei de Newton aplicada à água? Aplicando a 1.ª Lei de Newton: insistindo, combatendo a inércia, mudando o paradigma e transformando o excecional da eficiência no normal no uso da água. Água mole em pedra dura. Com resiliência e insistência, lá chegaremos à medida fundamental para a resiliência à seca: ao momento em que usamos água na medida certa, em que a eficiência hídrica é tão simples como abrir a torneira.

Este é o objetivo da ADENE, através do AQUA+. Saiba mais em https://www.aquamais.pt/

 

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[1] Giulio Boccaletti, “Água: uma biografia”, março 2022 (1.ª edição em português)

[2] Estudo de “Avaliação das disponibilidades hídricas atuais e futuras e aplicação do índice de escassez WEI+”, Agência Portuguesa do Ambiente (APA), Dezembro 2021, em consulta pública (https://participa.pt/pt/consulta/avaliacao-das-disponibilidades-hidricas-atuais-e-futuras-e-aplicacao-do-indice-de-escassez-wei)

[3] https://www.ipcc.ch/report/sixth-assessment-report-working-group-ii/

[4] Observatório da Energia, março 2022, https://www.observatoriodaenergia.pt/pt/

[5] Investigador do Massachusetts Institute of Technology (MIT) – https://www.giulioboccaletti.com/

[6] Plano Estratégico para o Abastecimento de Água e Gestão de Águas Residuais e Pluviais 2030

(PENSAARP 2030), em consulta pública, https://participa.pt/pt/consulta/projeto-de-resolucao-do-conselho-de-ministros-que-aprova-o-pensaarp-2030

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Sobre o autor

Licenciada em Engenharia do Ambiente, ramo de Ambiente, pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.

É atualmente Coordenadora de Novos Sistemas na ADENE – Agência para a Energia, unidade responsável pela operacionalização de sistemas e instrumentos voluntários nas áreas da mobilidade eficiente, eficiência hídrica de edifícios, eficiência energética de produtos e one-stop-shop para a eficiência de imóveis.

Anteriormente foi coordenadora da Unidade Hídrica da ADENE – Agência para a Energia, unidade responsável pela definição e coordenação estratégica de ações na área da eficiência hídrica e nexus Água-Energia na ADENE.

Antes de integrar a ADENE em 2016, desenvolveu atividades de consultoria, gestão e investigação no âmbito da conceção e execução de políticas públicas, processo legislativo, estudos, planos e projetos nas áreas do ambiente, água, energia, resíduos e uso eficiente de recursos.