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Novas ferramentas em economia circular

Daniel Murta

CEO & Fundador Ingredient Odyssey

06.07.2021

3

min. de leitura

A economia circular entrou nos nossos dias e tornou-se um tema quente e, felizmente, muito acarinhado nos últimos anos. Porém, há que perceber o que é realmente e como pode ser aplicada de uma forma mais vasta e a diferentes setores.  

Com a intensificação da agricultura, com a desertificação dos solos e com as alterações climáticas, tem havido uma preocupação cada vez maior sobre a manutenção da capacidade produtiva das parcelas agrícolas, sendo para tal requerido manter tanto a fertilidade dos solos como a disponibilidade de água. 

Esta intensificação tem sido em boa medida resultado do aumento demográfico a nível mundial, acompanhado, contudo, também por alterações de hábitos alimentares que levam a que haja uma procura cada vez maior por produtos de origem animal, principalmente nos países em desenvolvimento, sendo atingidos todos os anos níveis recordes de produção de rações para animais.  

Esta procura intensifica ainda mais as práticas agrícolas e o consumo de água, sendo de referir que a maior parte do solo agrícola mundial é usado na produção de alimento para animais, sendo igualmente uma percentagem significativa da água potável usada na sua produção. A presente pandemia de COVID-19 veio mostrar como o nosso continente, e em particular Portugal, estão reféns do resto do mundo no que diz respeito à nossa nutrição e à alimentação dos nossos animais de criação, estando perante um aumento galopante dos preços das matérias primas. A Europa é deficitária em fontes proteicas e assim vive na dependência do mercado internacional. 

Contudo, de uma forma completamente antagónica a esta pressão pela maior e melhor produção, vivemos numa sociedade que esbanja recursos naturais desperdiçando alimentos. Cerca de 25% dos alimentos gerados para consumo humano são desperdiçados todos os anos. Só em Portugal desperdiça-se um milhão de toneladas de alimentos ao longo da cadeia de valor, dos campos agrícolas aos supermercados, passando pelas unidades agroindustriais.  

Foram estes e outros desafios que levaram a equipa da EntoGreen a procurar novas soluções. Por um lado, que permitissem encontrar novas formas para alimentar os animais e as pessoas, formas menos poluentes e que fossem menos dependentes de mercados internacionais, mas que pudessem igualmente ajudar a reduzir a nossa pegada de carbono e impacto ambiental.  

Foi já em 2011 que começou este caminho. Foi ao encontrar um Ted Talk chamado “Why not eat insects” que o interesse por utilizar esta ferramenta no desbloqueio da alimentação animal e humana surgiu. Desde então passámos por fortes desafios que foram desde a aceitação das entidades oficiais, à obtenção de apoio e reconhecimento no setor. Contudo, o projeto ganhou forma com a aprovação de uma candidatura em co-promoção no âmbito do Portugal2020, em 2016, e que permitiu iniciar um trabalho científico que validou as nossas premissas. Este foi o projeto EntoValor, e foi central no nosso desenvolvimento.  

Durante cerca de quatro anos trabalhamos em parceria no sentido de validar a possibilidade de utilizar insetos como ferramenta na conversão de desperdícios alimentares, nomeadamente subprodutos da agroindústria, como talos de couve, repiso de tomate, bagaço de uva ou de azeitona, como matéria-prima para alimentar insetos que converteriam estes desperdícios, que de outra forma poderiam terminar em aterro ou compostagem, em novas fontes nutricionais para plantas e animais. 

A base deste processo é 100% natural e é assente na adaptação do que já acontece na natureza para um sistema que se pretendia industrial. Basicamente as misturas de subprodutos permite alimentar as larvas que utilizam os nutrientes ainda contidos nos desperdícios em proteína e óleo de inseto, usados na alimentação animal, nomeadamente de frangos, porcos e peixes, e em fertilizantes orgânicos estáveis que podem ser usados diretamente nos solos agrícolas, potenciando a fertilidade dos nossos campos e melhorando a retenção de água.  

Terminado este processo de I&D e validado o conceito, em 2020 submetemos um projeto Inovação Produtiva, também no âmbito do PT2020, que veio aprovado e que permitiu obter o desejado apoio financeiro e juntar à nossa volta duas capitais de risco nacionais, uma privada e uma governamental, para tornar o nosso processo de base em I&D num projeto industrial com um investimento total de 10,7M€ e que vai ser instalado em Santarém, sendo expectável que inicie a sua laboração em pleno na segunda metade de 2022 e que venha a empregar cerca de 60 pessoas. 

Acreditamos que a nossa história demonstra como os fundos de apoio no âmbito do PT2020 podem contribuir para gerar conhecimento e novos setores industriais no nosso país, estando a nossa empresa já a preparar novos desafios para o futuro, como seja o projeto NETA, recentemente aprovado pelo PT2020 e que se irá focar na reutilização de águas residuais, mas desta feita com uma ferramenta completamente diferente da anterior.  

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Sobre o autor

Daniel Murta nasceu em Portalegre, Portugal, em 1984, tendo completado o Mestrado Integrado em Medicina Veterinária em 2010 e o seu Doutoramento em Ciências Veterinárias em 2014. Desde então, e até 2021, foi Professor Assistente nas disciplinas de Fisiologia e Reprodução na Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Lusófona, sendo atualmente Scientific Officer e Professor Assistente no curso de Medicina Veterinária da Egas Moniz.

Fundou a EntoGreen em 2014, dedicando-se à produção industrial de insetos para alimentação animal. Foi cofundador da Portugal Insect, a Associação Portuguesa de produtores de insetos em 2018, e é atualmente Representante da Indústria de Insetos na Comissão Científica de insetos da Federação Europeia de Ciência Animal.