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Artigo

Resiliência energética para temporais mais intensos

24 de Fevereiro de 2026
Filipe Duarte Santos
Professor Catedrático, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

Tempo de leitura

5 minutos
“A resiliência não depende apenas de infraestruturas mais robustas, requer também planeamento, operacionalidades adequadas às emergências e alertas precoces do risco de inundação e cheia.”

Observa-se um aumento da intensidade das depressões ou ciclones (tropicais ou extratropicais) que constituem sistemas de baixa pressão atmosférica associados a precipitação e a ventos por vezes elevados. Este aumento de intensidade gera ventos cada vez de maior velocidade e crescentes quantidades de precipitação. Não há evidência de um aumento da frequência dos ciclones. Por outro lado, em algumas regiões do mundo, tal como na região do Mediterrâneo e sul da Europa, a frequência e a duração das secas está a aumentar. Há uma maior variabilidade intersazonal e interanual que, porém, não é possível prever com os modelos climáticos de que dispomos. A ciência permite concluir que estas tendências são provocadas pela intensificação do efeito de estufa na Terra que aumenta a quantidade de energia térmica armazenada no sistema climático e é causada pelas crescentes emissões de gases com efeito de estufa para a atmosfera, resultantes de algumas atividades humanas.

É, pois, necessário criar maior resiliência energética a estes eventos meteorológicos extremos e aos seus múltiplos impactos. A resiliência não depende apenas de infraestruturas mais robustas, requer também planeamento, operacionalidades adequadas às emergências e alertas precoces do risco de inundação e cheia. Estes obtêm-se por meio de modelos avançados de previsão do tempo e nowcasting (atualmente a serem melhorados com a IA), modelos hidrológicos e dados de satélite ou plataformas de observação da Terra, de radares e de estações meteorológicas, que permitem construir sistemas de monitorização de inundações e cheias. A capacidade de adaptação depende sobretudo de respeitar as cartas detalhadas de risco de inundação e cheia que estão disponíveis e de não edificar nas zonas de risco.

É necessário reforçar as infraestruturas físicas da rede elétrica aérea: reforço da fundação, da estrutura e do design das torres de transmissão para poder suportar maiores cargas de vento; elevação das subestações acima dos níveis de inundação e enterramento de linhas elétricas. Esta última medida, à primeira vista, parece ser a solução óbvia e ótima. Mas não é tão simples assim. As linhas subterrâneas têm custos de instalação quatro a dez vezes superiores à fiação aérea e são mais difíceis de manter e de reparar quando há avarias. Um dos problemas é a temperatura. As linhas aéreas são arrefecidas pelo ar, mas os cabos subterrâneos estão cercados por solo, o que retém o calor. Se esse calor não for dissipado adequadamente, pode danificar o isolamento do cabo e causar falhas. A voltagem é outra limitação. A utilização de tensões superiores a 66 kV nas transmissões subterrâneas requer cabos volumosos, caros e complexos, devido à necessidade de maior isolamento, o que torna as linhas aéreas mais vantajosas para níveis de tensão de 400 kV ou mais, constituindo assim a opção preferencial para transmissão de alta tensão em distâncias longas. À medida que a tensão aumenta, a potência reativa, a espessura do isolamento, a dissipação de calor e a carga capacitiva tornam-se fatores limitantes nos cabos subterrâneos. Note-se que os cabos subterrâneos têm muitas vantagens, entre as quais se destaca não terem o problema de contacto entre linhas elétricas aéreas e árvores, que, como se sabe, pode provocar incêndios florestais e constituem uma das principais preocupações das operadoras de rede E-REDES e REN.

Outra medida de adaptação e aumento de resiliência é descentralizar o abastecimento energético por meio de microrredes de transmissão de energia elétrica e de redes locais capazes de operar independentemente. A resiliência aumenta quando a geração é distribuída. A descentralização também se pode conseguir por meio de sistemas de armazenamento de energia, designadamente baterias que estabilizam o fornecimento quando a transmissão falha. Outra solução importante que já é utilizada, mas pode ser melhorada, são os sistemas de reserva para infraestruturas críticas, tais como hospitais, sistemas de abastecimento de água, telecomunicações e infraestruturas de carregamento de veículos elétricos.

É importante melhorar o design inteligente das linhas implementando tecnologias que permitem desconectar os condutores dos postes quando atingidos por detritos ou derrubados, evitando o colapso de vários postes em cadeia. Outras medidas relevantes são: criar redundância na rede através de percursos alternativos de abastecimento de energia elétrica, redes inteligentes e automação.

No planeamento estratégico e antecipatório importa utilizar modelação meteorológica avançada, pré-posicionamento de equipas e equipamentos, facilitar e aumentar a utilização de subestações e geradores móveis. A resiliência exige frequentemente investimentos iniciais elevados que dependem de políticas públicas, novos instrumentos de financiamento e medidas regulamentares orientadas para a resiliência.

 

Sobre o autor

É Professor Catedrático na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (UL) e Investigador Honorário do Instituto de Ciências Sociais da UL. Licenciado em Ciências Geofísicas na UL em 1963 e doutorado em Física Nuclear na Universidade de Londres em 1968. Foi diretor do Programa de Doutoramento em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável que envolve a UL e Universidade Nova de Lisboa de 2009 a 2024. É Presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável desde 2017, com mandato renovado em 2020 e 2023. De 1999 a 2019, foi delegado de Portugal na Comissão das Nações Unidas para o Uso Pacífico do Espaço Exterior, tendo sido eleito 2.º vice-presidente da Comissão nos anos de 2008-2009 e 1.º vice-presidente nos anos de 2012-2013. Publicou mais de 160 artigos em revistas científicas referenciadas no SCI nos domínios da física nuclear, astrofísica, ciências ambientais, sustentabilidade, alterações climáticas e vários livros, sendo o último, “Time, Progress, Growth and Technology. How Humans and the Earth are Responding”, Springer, 2021 ORCID.

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